sexta-feira, 7 de março de 2008

Os Clássicos Morreram, Morreram Os Clássicos

Colunista: Sylvia Maria Marteleto

Parte 1 de 2


Quando observamos algumas estatísticas em certos âmbitos, observamos que o que os números não dizem corresponde ao teor das verdades que querem ser esquecidas. Tal como a história monumental apontada por Benjamin encobre os mortos e ruínas esquecidas, a literatura consumida pela maioria da população brasileira, ou melhor, os “livros mais vendidos” nas prateleiras encobrem outro fator: os clássicos morreram para a massa.

Nem sequer sabemos se eles de fato existiram. Mas, sabe-se que fenômenos como “Harry Potter”, “Quem mexeu no meu queijo”, “O segredo”, livros de auto-ajuda, biografias que personificam o poder, debates desgastados sobre religiosidade e ocorrências históricas (“Código Da Vinci” está ao lado de outros mil), “Homens são de Marte, mulheres são de Vênus” e outros, sepultaram os clássicos da literatura universal.

Lê-se “Dom Casmurro”, geralmente já inserido – muitas vezes desproporcionalmente – no colégio. Lê-se Monteiro Lobato para o vestibular. Lê-se “Crime e Castigo” ou “Política” para áreas penais. Muito diferente de afirmar que os clássicos são presenteados ou adquiridos por espontaneidade.

Minhas crônicas, tão polêmicas, são unilaterais ao extremo – assim dizem e eu acredito. E justamente quando penso se estou a ultrapassar os limites da comicidade, lembro-me que todo pessimista inveterado é, antes do excesso, realista. Pois, o pessimismo não é fabricado de acordo com ilusões. Antes do vício, há sempre o errado para se discutir.

Pensando nisto é que me perguntei aonde andam os clássicos; por que Camões ou “Don Quixote” subsistem nas bibliotecas particulares por herança de uma época mais fecunda para os clássicos; e visto que esta época jaz obsoleta, por que “Sonhos de uma noite de verão” e “A lira dos vinte anos” são adquiridos dez vezes menos do que “Pai rico, pai pobre” e “Contos de Nárnia”.

A menos que insistam, peço que não me julguem cega. Entendo que os clássicos estão sempre vivos, mas ando observando que se transformaram em zumbis: vivos na imortalidade da tradição e mortos nas prateleiras.

A divulgação em massa tem grande importância para a queda da aquisição dos clássicos. E além disso, quem poderá saber se “O caçador de pipas” e “Perdas e danos” serão clássicos daqui a duzentos anos. A questão é menos a qualidade de best-sellers, publicidade, autores e editoras consagrados, que a pobreza da predisposição de um indivíduo para a adquirir “Quando Nietzsche chorou” do que o próprio Nietzsche.

Esta é a resposta, infelizmente concreta. A divulgação em mídias de largo alcance não assassina um clássico, quebra uma de suas pernas. Quem assassina o clássico é mesmo o cidadão comum.

Não raro, constam nas opiniões que livros são muito caros; e quem não tem o hábito de ler apega-se a esta escada de incêndio. Geralmente, são estes mesmos “desprovidos” que em épocas festivas propícias aos presentinhos e em épocas de vacas menos anoréxicas, pensam em comprar um livro cultuado (seja para presentear, seja para deleite pessoal) no cenário mercadológico, adquirindo assim os “mais vendidos”.

Melhor adquirir um livro de auto-ajuda que não é dos mais baratos, que se aventurar a conhecer os pilares do pensamento universal. De vez em quando, aparecem às mãos destes leitores algum Fernando Sabino. Continua amanhã!


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